terça-feira, fevereiro 24, 2009

Senhor Primeiro Ministro!

Excelência:

Num contexto de austeridade colectiva era bom que o exemplo viesse de cima, que a partilha dos sacrifícios fosse feita com equidade, com critério uniforme. O país sabe que muita da crise que está entre nós é fruto de um contexto externo cujos contornos são de tal forma graves e complexos que seria estultícia estar a enumerá-los.
Contudo, há factores endógenos que importa relevar sob pena de se estar a branquear a situação. A reforma estrutural a que se propôs - com coragem e sujeito aos maiores e mais desencontrados desaforos- era urgente e imperiosa. Custou-lhe alguma impopularidade, é certo, mas não tanta como seria de supor se atentássemos nos coros de carpideiras que por cá se vão acastelando, quais nuvens negras no horizonte.

Há situações que surgiram agora - estilo Freeport e outras - que dão a entender estarem enquadradas num contexto mais vasto de eleitoralismo cego num caldo de cultura doentio e fastidioso. Independentemente de se saber quem tem razão (pessoalmente acredito na sua inocência, até prova em contrário, como é óbvio), seria útil permitir e incentivar uma total transparência no sentido de facultar às autoridades todos os dados a fim de se esfumarem todas as dúvidas. A verdade completa, acima de todas as coisas.

Agora, casos como este que envolve a CGD e o empresário Fino, em que uma facilidade inaudita no que concerne a aceitação de acções da CIMPOR com a cotação cerca de 20% acima do valor de mercado, deixa-me um pouco perplexo e receoso de que tal precedente possa desencadear pedidos de outros depositantes eventualmente com acções abaixo do preço de compra.

Vossa Excelência tem sido um paladino da igualdade de oportunidades. Afirma-se pública e ostensivamente defensor dos mais fracos, dos economicamente débeis, logo, não terá moral para recusar pedidos de igual jaez feitos por cidadãos anónimos vítimas da crise bolsista, tal como o empresário Fino.

É óbvio que se a CGD fosse um banco genuina e intrinsecamente privado era um assunto diferente. Contudo, a CGD é em grande parte estatal. Logo, o tratamento é mais delicado e mais susceptível de poder ter repercussões na esfera governativa. Todos sabemos que os gestores não são correias de transmissão do governo, mas, nestes casos de grande envergadura, o governo deve ser conhecedor e aprovar tais medidas.

Imagine-se que as acções da CIMPOR descem num curto prazo 50%! tudo pode acontecer! Já imaginou o impacto eleitoralista que este negócio pode causar?

Já imaginou o coro oposicionista a colher dividendos desta negociata? Já imaginou a campanha eleitoral a ser dirimida num contexto de generalizada crise bolsista?

Que dirá o povo? Que dirão as oposições?

Lá diz o povo: «a mulher de César além de ser séria deve também parecê-lo...»

4 comentários:

amsf disse...

Infelizmente nos governos e na administração pública há uma certa fauna que não foi eleita por ninguém e que frequentemente compromete o erário público em negócios ruinosos, umas vezes por incompetência, outras por corrupção!

amsf disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Leite disse...

Meu caro amsf:

Não falei em corrupção. Pode vir a ser um negócio ruinoso. Arriscado é.
Contudo, as repercussões eleitoralistas poderão vitimizar o próprio governo. Se o contexto externo for desfavorável às empresas do ramo, a CIMPOR pode seguir em linha com o mercado e sabemos como a volatilidade é grande. Daí até à volatilidade eleitoral...

Dimas Maio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.